Mercado de IA cresce no Brasil, mas falta de profissionais limita expansão

Olivia Hartmere
Olivia Hartmere
Vert Analytics

A Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, realizada com 39 mil empregadores em 41 países, incluindo 1.020 no Brasil, aponta que 80% das empresas brasileiras enfrentam dificuldade para contratar profissionais qualificados. Entre as competências técnicas mais difíceis de encontrar no país, o levantamento destaca justamente o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial e o letramento em IA. Empresas de diferentes portes disputam um número limitado de cientistas de dados, responsáveis por explorar e preparar grandes volumes de informação, engenheiros de machine learning, que constroem e mantêm os modelos em produção, e especialistas em IA generativa, focados na aplicação desses modelos a problemas de negócio específicos: três perfis distintos, com formação e rotina de trabalho diferentes entre si, ainda que frequentemente tratados como intercambiáveis. 

Nesse contexto, formar profissionais internamente passa a ser mais do que uma alternativa à contratação. Torna-se uma estratégia de crescimento para empresas que precisam preservar conhecimento técnico e ampliar sua capacidade de desenvolver soluções próprias de inteligência artificial. A Vert Analytics adota esse caminho ao investir na formação e no desenvolvimento contínuo de seus profissionais, reduzindo a dependência de um mercado onde a oferta de especialistas segue abaixo da demanda das empresas. 

Um descompasso entre demanda e formação

O ritmo de adoção da inteligência artificial pelas empresas brasileiras avançou muito mais rapidamente do que a capacidade das instituições de ensino de formar profissionais especializados em quantidade suficiente. Cursos relacionados à ciência de dados, machine learning e inteligência artificial ainda são relativamente recentes em muitas instituições, enquanto a formação de um profissional com experiência suficiente para conduzir projetos complexos exige tempo e exposição prática a diferentes desafios.

Esse descompasso produz um efeito direto sobre os projetos de tecnologia. Muitas organizações encontram dificuldades não pela ausência de ferramentas disponíveis, mas pela falta de equipes capazes de estruturar, desenvolver, implementar e manter soluções de inteligência artificial com o nível de precisão exigido por operações complexas.

Em ambientes de missão crítica, essa diferença se torna ainda mais relevante. O conhecimento necessário não está apenas no domínio de uma tecnologia específica, mas também na capacidade de compreender dados, processos, regras de negócio e particularidades regulatórias de cada aplicação.

Formar internamente como estratégia de crescimento

Diante da escassez de profissionais especializados, depender exclusivamente do mercado externo para formar equipes de IA limita a capacidade de expansão das empresas. Uma alternativa é criar mecanismos próprios de formação, com programas estruturados de desenvolvimento, capacitação contínua e exposição progressiva a projetos de maior complexidade.

A Vert Analytics reúne cerca de 130 profissionais especializados distribuídos em seis estados e estrutura parte de sua estratégia de crescimento a partir desse desenvolvimento interno. A iniciativa permite formar profissionais dentro de uma cultura técnica própria e, ao mesmo tempo, prepará-los para os desafios específicos encontrados nos projetos desenvolvidos pela empresa.

Essa abordagem também contribui para preservar conhecimento. Em vez de depender apenas da contratação de especialistas já prontos no mercado, a organização constrói gradualmente profissionais familiarizados com suas metodologias, tecnologias e padrões de qualidade.

Cultura organizacional também influencia a retenção

Formar talentos internamente resolve apenas uma parte do problema. Em um mercado no qual a procura por especialistas em inteligência artificial supera a oferta, manter esses profissionais também se torna uma questão estratégica.

A retenção depende de fatores que vão além da remuneração. Oportunidades de aprendizado, possibilidade de participar de projetos relevantes, desenvolvimento profissional e contato com problemas de diferentes níveis de complexidade ajudam a construir uma trajetória capaz de manter profissionais qualificados dentro da organização.

Reconhecida como Great Place to Work por dois anos consecutivos, a Vert Analytics associa esse ambiente ao desenvolvimento técnico contínuo. A possibilidade de avançar para projetos mais complexos ao longo da carreira cria uma perspectiva de evolução que pode ser especialmente relevante em uma área na qual o conhecimento se transforma rapidamente.

O conhecimento acumulado como ativo estratégico

Quando uma empresa consegue formar e reter profissionais por períodos prolongados, o conhecimento adquirido deixa de estar restrito a indivíduos e passa a fazer parte do patrimônio técnico da organização.

Essa característica ganha importância em projetos de missão crítica. Um profissional que passa anos trabalhando com diferentes aplicações de inteligência artificial acumula não apenas conhecimento sobre tecnologia, mas também experiência sobre processos, dados, integrações, requisitos regulatórios e situações excepcionais que dificilmente são aprendidos apenas em cursos ou treinamentos.

Esse conhecimento acumulado também reduz o tempo necessário para compreender novos desafios. A experiência obtida em projetos anteriores pode ajudar a equipe a reconhecer padrões, antecipar dificuldades e tomar decisões técnicas com maior segurança.

A diversidade de projetos acelera a formação técnica

Um aspecto menos discutido na formação de profissionais de inteligência artificial é a importância da diversidade de contextos. Trabalhar continuamente em um único tipo de aplicação pode limitar o repertório técnico, enquanto a exposição a diferentes setores amplia a capacidade de compreender problemas sob perspectivas distintas.

Projetos relacionados a áreas como jurídico, segurança pública, saúde e setor financeiro, por exemplo, apresentam desafios específicos de dados, regulamentação, processos e tomada de decisão. O contato com essa variedade ajuda o profissional a desenvolver uma visão mais ampla sobre como a inteligência artificial pode ser aplicada em diferentes ambientes.

Para empresas que desenvolvem soluções próprias de IA, essa diversidade também representa uma vantagem. O conhecimento acumulado em diferentes projetos contribui para criar tecnologias mais adaptáveis a problemas complexos, sem depender exclusivamente de soluções genéricas.

Um investimento que ultrapassa a própria empresa

Embora a formação de profissionais esteja diretamente relacionada às necessidades de cada organização, o impacto desse investimento pode alcançar o mercado como um todo. Profissionais desenvolvidos em ambientes de alta complexidade carregam ao longo da carreira padrões técnicos, conhecimentos e experiências que contribuem para elevar a maturidade do setor de inteligência artificial.

Para a Vert Analytics, enfrentar a escassez de talentos por meio da formação interna funciona como uma forma de sustentar projetos complexos e preservar conhecimento técnico ao longo do tempo, sem depender exclusivamente de um mercado de contratação disputado. A formação interna não resolve sozinha o problema de escassez do setor, mas reduz a exposição de uma empresa específica a esse gargalo, na medida em que parte do conhecimento necessário passa a ser desenvolvida dentro de casa, e não comprada pronta em um mercado onde a demanda supera a oferta.

Em um mercado que cresce mais rapidamente do que a formação tradicional consegue acompanhar, a capacidade de formar, desenvolver e reter profissionais especializados pode se tornar tão importante quanto a própria tecnologia. Afinal, por trás de cada solução de IA capaz de operar em ambientes complexos, existe um fator que nenhuma ferramenta consegue substituir: uma equipe preparada para desenvolver, supervisionar e evoluir essa tecnologia.

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