Cinturão das Águas do Ceará chega a 93,2% de execução e entra na reta final das obras

Olivia Hartmere
Olivia Hartmere

Trecho de 145 km leva águas do São Francisco pelo Cariri e deve ampliar a segurança hídrica de diferentes regiões do Ceará.

Uma das principais obras de infraestrutura hídrica do Ceará entrou em uma etapa avançada. O Trecho I do Cinturão das Águas do Ceará (CAC) alcançou 93,2% de execução, segundo atualização divulgada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional em 3 de setembro de 2026. O empreendimento recebe água do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco a partir do reservatório de Jati e percorre aproximadamente 145 quilômetros até o Rio Cariús, em Nova Olinda. Nesta sexta-feira, 4 de setembro, a obra também entrou na agenda do governo federal, com visita técnica programada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro Waldez Góes às frentes de serviço no Crato. Mais do que a agenda institucional, porém, o avanço chama atenção pelo impacto esperado sobre o abastecimento humano e diferentes atividades econômicas. Para os cearenses, a principal questão é entender como essa infraestrutura permitirá distribuir as águas do São Francisco pelo estado e quais regiões poderão ser beneficiadas quando o sistema estiver plenamente operacional.

Como funciona o Cinturão das Águas e por onde passa a água do São Francisco?

O Cinturão das Águas foi concebido para ampliar a distribuição, dentro do Ceará, das vazões recebidas pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco. O Trecho I começa na tomada d’água da barragem de Jati, conectada ao Eixo Norte da transposição, e segue em direção às nascentes do Rio Cariús, em Nova Olinda. Segundo a Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará, são 145,3 quilômetros de percurso, formados por diferentes estruturas de engenharia, como canais a céu aberto, sifões e túneis. O sistema funciona de maneira gravitária e possui capacidade máxima projetada de 30 metros cúbicos por segundo. Dessa forma, a água recebida do São Francisco pode ser conduzida por uma infraestrutura criada especificamente para aumentar sua capilaridade dentro do território cearense.

O percurso atravessa diferentes municípios do Cariri e foi dividido em lotes para execução das obras. O primeiro começa em Jati e passa por Porteiras e Brejo Santo, enquanto os segmentos seguintes avançam por municípios como Abaiara, Missão Velha, Barbalha, Juazeiro do Norte e Crato, até chegar a Nova Olinda. Essa distribuição ajuda a explicar por que o projeto é considerado estratégico para uma área que reúne cidades populosas e importantes atividades econômicas. Além dos canais visíveis na superfície, há quilômetros de sifões e túneis necessários para vencer características do relevo e manter o deslocamento da água. O objetivo não é criar simplesmente um grande canal isolado, mas formar uma infraestrutura capaz de conectar a água recebida do São Francisco aos sistemas hídricos já existentes no Ceará.

Essa integração é um dos pontos mais importantes do empreendimento. A Secretaria dos Recursos Hídricos explica que a implantação do Trecho I permite transferir as vazões provenientes da transposição em direção ao Açude Orós, o segundo maior reservatório do Ceará, e também melhora a condução da água em direção ao Castanhão, maior açude do estado. Na prática, isso significa que a infraestrutura pode ampliar o alcance da água recebida pelo Ceará em vez de concentrá-la apenas na região próxima ao ponto de entrada. O Ministério da Integração afirma que o projeto é destinado ao abastecimento humano, à atividade industrial e à irrigação no Cariri, além de contribuir para a segurança hídrica da Região Metropolitana de Fortaleza.

Quais cidades e regiões podem ser beneficiadas pelo Cinturão das Águas?

O impacto mais imediato está relacionado ao Cariri, uma das regiões de maior importância populacional e econômica do Ceará. A própria Secretaria dos Recursos Hídricos aponta que o aquífero Missão Velha, um dos principais mananciais utilizados para atender às demandas locais, apresenta sinais de pressão sobre sua capacidade de exploração. A chegada de uma nova fonte de água permite diversificar o abastecimento e reduzir a dependência de recursos subterrâneos em determinadas localidades. Ao aproximar as águas do Projeto São Francisco dos municípios pertencentes à bacia hidrográfica do Salgado, o Cinturão aumenta a disponibilidade hídrica potencial para consumo humano e atividades produtivas. Isso ganha importância principalmente durante períodos prolongados de baixa precipitação, situação historicamente associada à necessidade de grandes obras de armazenamento e transferência de água no Ceará.

Os benefícios projetados, porém, não ficam restritos às cidades diretamente atravessadas pelos canais. A estrutura foi planejada para funcionar em conjunto com reservatórios, rios e sistemas de adução que distribuem água para outras localidades. A SRH destaca, por exemplo, a possibilidade de aumentar a garantia hídrica dos municípios do Alto Jaguaribe por meio de sistemas associados ao programa Malha d’Água. A captação prevista no final do Trecho I poderá permitir o transporte de água tratada para cidades como Araripe, Campos Sales e Salitre, entre outras localidades consideradas vulneráveis do ponto de vista hídrico. Assim, a importância da obra precisa ser avaliada não apenas pelos municípios pelos quais os canais passam fisicamente, mas também pelas conexões que o sistema possibilita.

Existe ainda um efeito estratégico para outras áreas do estado. O Ministério da Integração afirma que o Cinturão das Águas contribuirá para a segurança hídrica da Região Metropolitana de Fortaleza, onde está concentrada uma parcela significativa da população cearense e da atividade econômica estadual. Isso acontece porque a integração com reservatórios como Orós e Castanhão fortalece a rede responsável por armazenar e transportar água dentro do Ceará. A obra, portanto, funciona como uma espécie de corredor hídrico que permite aproveitar melhor a vazão proveniente da transposição do São Francisco. Em um estado no qual disponibilidade e distribuição de água têm impacto direto sobre cidades, agricultura e indústria, ampliar a flexibilidade desse sistema pode ser tão importante quanto aumentar o volume armazenado nos próprios reservatórios.

O que significa chegar a 93,2% das obras e o que ainda falta?

A atualização divulgada pelo governo federal mostra uma mudança significativa em relação aos estágios anteriores do empreendimento. O Ministério da Integração informou que o Trecho I está com 93,2% de execução, colocando a obra em uma fase avançada. Nesta sexta-feira, 4 de setembro, uma das frentes de trabalho no Crato recebe visita técnica do presidente Lula, do ministro Waldez Góes e de outros integrantes do governo federal. A agenda está prevista para as 14h30, no distrito de Barro Branco. A visita dá visibilidade nacional ao empreendimento, mas o principal dado para a população continua sendo o percentual físico alcançado e a aproximação da conclusão das estruturas restantes. Como ocorre em grandes projetos de infraestrutura, chegar a um percentual elevado não significa necessariamente que todo o sistema esteja imediatamente pronto para operar em sua capacidade definitiva.

Também é necessário diferenciar a conclusão física das obras da plena integração dos diferentes sistemas hídricos. Canais, sifões e túneis precisam funcionar em conjunto com reservatórios, estruturas de controle e outras obras de transferência para que a água percorra o caminho planejado. O próprio projeto do Cinturão das Águas está inserido em uma rede mais ampla que envolve a transposição do São Francisco, barragens estaduais e futuros sistemas de adução. Por isso, a etapa final não deve ser analisada somente pela quantidade de quilômetros construídos. Testes, acabamentos, equipamentos hidromecânicos, estruturas complementares e preparação para a operação também fazem parte do processo necessário para que uma infraestrutura desse porte entregue os benefícios previstos.

Para os moradores do Ceará, o avanço para 93,2% de execução representa sobretudo a aproximação de uma nova etapa na estratégia estadual de segurança hídrica. O Cinturão não elimina sozinho os desafios provocados pela irregularidade das chuvas nem substitui políticas de conservação, saneamento e gestão eficiente dos reservatórios, mas amplia as alternativas disponíveis para movimentar água entre diferentes regiões. A capacidade de transportar as vazões do São Francisco pelo Cariri e conectá-las a estruturas estratégicas como Orós e Castanhão pode tornar o sistema estadual mais flexível diante de períodos de escassez. Com 145 quilômetros de infraestrutura e diferentes municípios no caminho, a reta final das obras transforma a pergunta central: mais do que saber quanto já foi construído, os cearenses passam a acompanhar quando todo o sistema estará operacional e quando seus efeitos serão percebidos de forma mais ampla no abastecimento.

Fonte oficial — Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional
Dados técnicos — Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará

Compartilhe este artigo