Conselhos de administração dividem opiniões em empresas familiares, observa Rodrigo Gonçalves Pimentel

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Poucas decisões dividem tanto a opinião de fundadores quanto a criação de um conselho de administração, tema que Rodrigo Gonçalves Pimentel, filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, observa de perto ao acompanhar processos de profissionalização em empresas familiares. Para muitos empresários, o conselho surge como sinônimo de perda de controle sobre decisões que sempre estiveram concentradas em poucas pessoas, quando, na prática, cumpre função bem diferente. Uma resistência inicial, mais emocional do que técnica, costuma se dissolver à medida que a estrutura passa a funcionar e os resultados começam a aparecer com mais clareza do que qualquer discurso favorável à governança conseguiria demonstrar isoladamente.

A contradição é conhecida entre quem acompanha empresas familiares de perto: a mesma geração que reconhece, em teoria, a importância de profissionalizar a gestão hesita, na prática, em abrir espaço para decisões colegiadas que reduzam seu controle direto sobre o negócio. Compreender por que essa hesitação existe e como pode ser superada sem gerar rupturas na família ajuda a entender por que tantos conselhos de administração nascem tarde demais, quando já não conseguem evitar conflitos que poderiam ter sido prevenidos com antecedência.

Rodrigo Gonçalves Pimentel
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Por que empresas familiares resistem a criar conselhos de administração?

A resistência costuma ter origem em um receio concreto: a sensação de que abrir a gestão a um colegiado significa perder a última palavra sobre decisões que, até então, cabiam exclusivamente ao fundador ou à geração no comando. Pontua Rodrigo Gonçalves Pimentel que essa percepção, embora compreensível, ignora o fato de que conselhos bem estruturados não substituem a autoridade da família, mas organizam o processo de decisão de forma que ele se torne mais consistente ao longo do tempo. Empresas que adiam indefinidamente essa estrutura tendem a concentrar decisões estratégicas em uma única pessoa, o que cria vulnerabilidade evidente diante de qualquer imprevisto relacionado à saúde, à disposição ou à disponibilidade dessa pessoa para continuar exercendo esse papel.

O que muda quando um conselho de administração passa a existir na prática?

A criação formal de um conselho altera, antes de tudo, o ritmo das decisões. Assuntos que antes eram resolvidos informalmente, muitas vezes em conversas de corredor, passam a exigir discussão estruturada, registro e acompanhamento de resultados. O processo tende a incomodar no início, sobretudo para fundadores acostumados a decidir sozinhos, mas costuma revelar, com o tempo, decisões mais consistentes e menos sujeitas a impulsos de curto prazo, o que reduz significativamente o peso de erros individuais sobre o destino do negócio.

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Outro efeito prático, menos comentado, é a mudança na forma como conflitos entre sócios passam a ser tratados. Divergências que antes se acumulavam sem espaço formal de discussão, muitas vezes por anos, encontram no conselho um ambiente estruturado para serem colocadas na mesa antes de se tornarem disputas mais graves. Empresas que já operam com esse tipo de estrutura relatam menos surpresas em momentos de sucessão, justamente porque boa parte das divergências relevantes já foi discutida e registrada com antecedência, em vez de emergir de uma só vez no momento da transição.

Conselho não substitui a autoridade da família, redefine seu exercício

Um mal-entendido recorrente trata governança como se fosse sinônimo de afastamento da família da gestão do negócio, quando o objetivo costuma ser exatamente o contrário: preservar a influência familiar de forma organizada, com regras claras sobre quem decide o quê e sob qual critério. Rodrigo Gonçalves Pimentel ilustra que famílias que compreendem essa diferença tendem a implementar conselhos com muito mais tranquilidade do que aquelas que enxergam a estrutura como ameaça a um poder que, na prática, nunca deixou de ser exercido pela família, apenas de forma mais organizada e menos sujeita a decisões isoladas.

Quando é o momento certo para formalizar um conselho de administração?

Não existe fórmula única, mas alguns sinais indicam que a estrutura já deveria existir: crescimento do número de sócios, entrada de gerações mais jovens na gestão, aumento da complexidade patrimonial ou simples percepção de que decisões importantes dependem demais de uma única pessoa. Quanto mais tarde a família espera para formalizar essas regras, maior a chance de que a primeira grande decisão colegiada aconteça sob pressão, em meio a um conflito já instalado, em vez de ocorrer de forma planejada e consensual. Famílias que aguardam o surgimento de um problema concreto para só então discutir governança costumam pagar, em desgaste e em recursos, um preço muito maior do que pagariam se tivessem antecipado essa conversa em um momento de maior tranquilidade entre os sócios.

Governança como investimento na continuidade, não como custo administrativo

Rodrigo Gonçalves Pimentel avalia que tratar a governança como custo administrativo, e não como investimento na continuidade do negócio, é um dos equívocos mais recorrentes entre famílias que ainda hesitam em formalizar seus conselhos. O retorno desse investimento raramente aparece no curto prazo, mas se manifesta justamente nos momentos em que o negócio mais precisa de decisões consistentes: sucessões, crises de mercado ou divergências entre ramos familiares. Famílias que enxergam a governança dessa forma tendem a construir estruturas mais resilientes, capazes de atravessar gerações sem depender da presença constante de uma única liderança para manter o rumo do negócio.

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